Retalhos

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Nossos retalhos, nossa história!

Alessandra Cerri

Uma pessoa muito, muito especial na minha vida (minha mãe) me enviou um poema lindíssimo de Cora Coralina: “Sou feita de retalhos”.

 

 

Li e, como sempre acontece, me encantei com os escritos dessa mulher extraordinária. Cora Coralina me fascina por sua sabedoria mostrada de diferentes maneiras nos seus poemas ou na sua história de vida. Ela é a prova de tudo o que estudo e acredito: sempre é tempo de novos “começos” para quem confia e se permite viver.
Pois bem, voltando ao poema dos retalhos, mais uma vez a escrita sábia de Cora pode ser comprovada. Somos feitos de retalhos que variam de tamanho, intensidade, textura, mas são eles que formam nossa história e nos mostram a maneira como tecemos nossa vida. Sim, somos nós que escolhemos as cores que predominam e os tipos de desenhos que ficarão estampados nesses pedaços de história. 
Assim como uma colcha, não podemos simplesmente tirar os retalhos que não gostamos, pois eles farão falta, deixarão um buraco no todo, mas podemos colocar outros pedaços mais bonitos ao redor desses que nos desagradam e a isso damos o nome de resiliência. Ou seja,  seguir em frente mesmo enfrentando obstáculos, problemas e rabiscos da vida. Aliás, é importante ressaltar que quanto maior o potencial de resiliência maiores as probabilidades de um envelhecimento bem sucedido.
Nossos retalhos podem ainda ser emendados pelos de outras pessoas que contribuem para completar nossa colcha. Em alguns momentos da vida desanimamos e diminuímos o ritmo ou baixamos a qualidade da “confecção” dos retalhos e nesses momentos a família e os amigos são fundamentais para nos auxiliarem na continuidade. Não é por acaso que o cultivo de amizades e valorização da família são itens importantes na busca do tão sonhado envelhecimento com sucesso.   
Estamos diariamente confeccionando retalhos, algumas vezes não nos atentamos para isso e o fazemos de qualquer jeito, no piloto automático e, claro, corremos o risco de olhamos para o retalho feito e não nos encantarmos muito por constatarmos nele a falta de cuidado e capricho.
Por isso, é importante lembrarmos constantemente que estamos tecendo, construindo nossos retalhos e quanto mais conscientes e atentos estivermos na escolha das “cores” e mensagens que iremos deixar maiores as chances de gostarmos do produto final que, aliás, não tem fim propriamente dito.
Nossa história é feita com os retalhos que imprimem nossos momentos, nossas escolhas, crenças e memórias. Então, teça da melhor e mais cuidadosa maneira possível, esteja consciente da necessidade de escolher as cores (quanto mais cor e mais estampas mais alegre ficarão), valorize os que você não se orgulha tanto (eles são melhores do que buraco e sustentam o todo) e permita que pessoas queridas e importantes auxiliem você na confecção quando o cansaço e o desanimo te atrapalharem. E o mais importante: se você está aqui é porque é capaz e pode, ainda, ajudar na construção dos retalhos de outras pessoas. 

Finalizo com um trecho desse belo poema de Cora Coralina: “Sou feita de retalhos. Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma. Nem sempre bonitos, nem sempre felizes, mas me acrescentam e me fazem ser quem eu sou”.

Namastê e até a próxima!

Alessandra Cerri é sócia-diretora do Centro de Longevidade e Atualização de Piracicaba (Clap); mestre em educação física, pós-graduada em neurociência e pós-graduanda em psicossomática